quarta-feira, 18 de maio de 2016

A MAÇONARIA E A FORMAÇÃO DO ESTADO LAICO BRASILEIRO



“Toda religião associada ao governo das coisas terrenas é uma religião morta”. (Ruy Barbosa. in: “O papa e o concílio”, p.7).




CONSIDERAÇÕES INICIAIS

De inicio, quero afirmar que a maçonaria sempre foi a favor das liberdades individuais e lutou com todas suas forças para implantação do Estado Laico.
Isso se tornou mais prático com a revolução francesa ocorrida no século XVIII.

A discussão entre poder secular (Estado) e poder religioso (Igreja) é antiga. Começa  na antiguidade, passa pelos gregos, por toda Idade Média, Idade Moderna, e chega à atualidade.
O poder religioso era tão presente que na Grécia antiga, que ateísmo era a acusação comum feita àqueles que fizessem críticas à religião predominante. O caso mais conhecido na história da humanidade foi o do filósofo Sócrates[1], que rompeu com a concepção de Cidade (Estado) baseado na vontade dos deuses. Por isso foi acusado de corromper a juventude.


É muito provável que a idéia maçônica do Estado Laico tenha surgido no século XVIII com a constituição de Anderson:

A Constituição de Anderson foi publicada pela primeira vez no ano de 1723 em Londres, uma época de muita perseguição religiosa. Apesar disso, determina que o Maçom não deva aceitar de maneira imposta a religião do País, qualquer que seja, devendo guardar sua opinião para si mesmo. De maneira tímida, convenhamos, está o germe de uma grande idéia sonhada e conquistada pelos Maçons, a criação de um Estado laico. (NUNES: p.8).


Vale aqui o texto da Constituição de Anderson na qual expressa de forma muito sucinta e objetiva os ideais de tolerância e liberdade, o que presume a indicação de que o Estado não pode adotar uma religião para si, mesmo que esta seja da maioria das pessoas em determinada época.

Um Maçom é obrigado, por dever de ofício, a obedecer a Lei Moral; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso. Muito embora em tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada País a adotar a religião daquele País ou nação, qualquer que ela fosse, hoje se pensa mais acertado somente obrigá-los a adotar aquela religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprios, isto é, serem homens bons e leais, ou homens de honra e honestidade, qualquer que seja a denominação ou convicção que os possam distinguir; por isso a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de conciliar uma verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância (ANDERSON, 2003).

            Vale ainda lembrar as anotações de Nunes, (2005), quando refere-se à maçonaria como aquela instituição que promove a unidade dos povos indiferente de etnias, raça ou religião.

A Maçonaria promove o direito universal do ser humano professar a religião que bem entender. Em uma Loja Maçônica não existem discussões religiosas porque a liberdade de cada irmão ter a sua escolha religiosa é respeitada. Nas oficinas há irmãos candomblecistas, budistas, evangélicos, católicos, espíritas, umbandistas, muçulmanos, judeus e de demais credos que convivem em paz e harmonia. (NUNES: 2005, p.10).


 O PAPEL DA MAÇONARIA NO LAICISMO BRASILEIRO

O Brasil desde 1891 com o advento da República e conseqüentemente a  Constituição Republicana, deixou de ser um Estado Confessional. Antes e por quase quatro séculos oficialmente a Igreja Católica Romana era ligada em todos os sentidos ao Estado.  A isso, era chamado de “Estado Confessional”, ou seja, aquele que adota uma religião.
Com o advento da republica deixou de ser confessional passando a ser um Estado laico. Sendo assim, os poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário, em todos os seus níveis, estão constitucionalmente, proibidos de professar, influenciar, ser influenciado, favorecer, prejudicar, financiar, qualquer vertente religiosa, sendo este, entre outros, um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. A base para isso no regime jurídico atual está estão nos artigos 5o, Inciso: VI, e, 19, inciso I, da Carta Magna de 1988.
Desta forma, independente da quantidade de fiéis, tempo de existência, ou do patrimônio que uma religião possua todas as manifestações de religiosidade ou credos, seja evangélico, católico, espírita, judaico, oriental, muçulmano etc, bem como, os ateus, humanistas e agnósticos etc, nas questões de fé gozam de igual proteção do Estado Laico.
Segundo Castellani, (2000), as palavras, Liberdade, Igualdade e Fraternidade[2] oriundas da revolução francesa e adotadas na maçonaria, nasceram na maçonaria bem antes da revolução. Elas semanticamente carregam um conteúdo de liberalismo, progressismo, positivismo e laicismo.  Filosofias que foram amplamente difundidas na França e no restante da Europa e difundida no Brasil desde a época da inconfidência mineira.[3]
                                                        
As três palavras: Liberdade, Igualdade e Fraternidade que se tornaram, praticamente, um lema da Maçonaria contemporânea, não têm origem maçônica. Alguns autores, mais ufanos do que realistas e mais fantasistas do que científicos, afirmam que o lema é maçônico e foi utilizado como divisa da Revolução Francesa de 1889. A verdade histórica, todavia, é bem outra: Em primeiro lugar, o lema da Revolução Francesa era “Liberté, Égalité, ou la Mort” (Liberdade, Igualdade, ou a Morte). Só com a 2a. República, em 1848, é que ele iria se transformar em “Liberté, Égalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade, Fraternidade). Em segundo lugar, foi a Maçonaria francesa que , na segunda metade do século XIX, adotou o lema da 2a. República, o qual acabaria se vulgarizando entre os maçons que trabalhavam sob influência da cultura francesa, em todo o mundo, a ponto de chegar a ser considerado como uma divisa exclusivamente maçônica, o que não é. Em terceiro lugar, a idéia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade é bem mais antiga. Podem ser encontrados vestígios dela, quando da criação da primeira seita comunista, dita “Comunismo Cristão”, fundada em 1694, por Johann Kelperès. Para os membros dessa seita, o Messias aguardado não se apresenta como o pescador de almas, mas, sim, através de uma trilogia, onde ele é o “distribuidor de justiça”(igualdade), o “grande irmão” (fraternidade) e o “libertador” (liberdade). (CASTELLANI: 2000, p. 41).

Do ponto de vista político social, segundo Castellani, (2000), há nesta trilogia o tripé para sustentação da sociedade sem o qual ela não evolui.
A igualdade constitui um ideal da organização social, pela qual lutou a humanidade, à medida que ia avançando no caminho de sua evolução. Essa luta dura até hoje, porque a divisão das nações, em sistemas políticos, das comunidades, em classes sociais, e dos indivíduos, em posições econômicas, morais e intelectuais, prejudicam os esforços em benefício da igualdade irrestrita. A fraternidade é considerada como a conduta que norteia a vida de um indivíduo. Ela é desejada, reclamada e fixada como objetivo de todas as religiões, instituições sociais, partidos políticos, etc., estabelecendo o altruísmo contra o egoísmo, a benevolência contra a malevolência, a tolerância contra a intolerância, o amor contra o ódio. A liberdade nasce com o indivíduo, atinge o consciente coletivo dos povos e produz fatos extraordinários. O sentimento de liberdade é o bem mais caro ao coração de um homem; e não há nada que o deprima tanto quanto a opressão da escravidão, o encarceramento da consciência e a privação da liberdade. (IBID: p.41).


Em síntese, a fraternidade é o complemento da liberdade individual, a tolerância, em relação à liberdade, e a compreensão, em relação à igualdade.

Mas qual foi o papel da Maçonaria para que o Estado Brasileiro se tornasse um Estado Laico?
A formação do Estado Laico, no Brasil, foi resultado de um longo processo histórico, cujas raízes se encontram na formação da consciência republicana discutida em Lojas maçônicas desde o inicio do século XIX. Haja vista os idéias maçônicos estiveram presentes na Inconfidência Mineira e em outras revoluções posteriores.
A maçonaria existe no Brasil já desde o início, remontando o século XVI, período colonial, mas a primeira loja fora instalada no Brasil somente em 1801.
A primeira notícia escrita que se teve no estrangeiro sobre o estabelecimento da maçonaria no Brasil, foi o manifesto de 1832, publicado no Masonic World-Wide Regieter, redigido por José Bonifácio de Andrada e Silva. Neste manifesto, Bonifácio afirmou que as lojas brasileiras tinham sido fundadas em 1801 e 1802, respectivamente no Rio e na Bahia, e tinham-se filiado à Grande Loja Francesa. (VIEIRA, 1980, p.41).
Ela influenciou muito nas lutas políticas e sociais, e reproduzia seus ideais libertários. Para os maçons (liberais por natureza) em geral, as liberdades individuais e os direitos humanos eram tão essenciais e importantes para que uma nação pudesse se consolidar como democrática e progressista.
Os maçons, de certa forma, foram os arautos do progresso e da formação da consciência modernizadora nacional naquele contexto. Em algumas lojas maçônicas do país eram comuns a presença de sacerdotes e de altos funcionários do Império. Ela reproduziu no Brasil seus ideais libertários. Não era contra a Igreja, mas a Igreja oficialmente era contra a maçonaria.
O governo de Portugal percebeu logo a influência da maçonaria que em 1818 proibiu a ordem maçônica e outras confrarias de se estabeleceram no Brasil:


O Alvará Real, de 1818, é um documento importante na História da Maçonaria brasileira, porque a sua meta principal era, exatamente, a de proibir o funcionamento das ainda incipientes Lojas do território nacional, na época em que o Brasil era Reino Unido ao de Portugal e Algarve. E ele foi motivado pela agitação do meio maçônico, empenhado em obter a independência do Brasil, através de movimentos regionais nacionalistas, de caráter geralmente republicano, os quais não podiam, evidentemente, agradar à Coroa. Toma-se o Alvará de 1818, como uma conseqüência direta da fracassada Revolução Pernambucana de 1817 2. O seu texto mostra, na realidade, o empenho do rei D. João em proibir, com o uso da força, qualquer nova tentativa de rebelião, com participação das hostes maçônicas. (CASTELLANI: 2000, p.1).


Castellani, (2000),  diz que com o fracasso da Revolução de 1817 e a expedição do Alvará de 1818, as Lojas resolveram cessar os os seus trabalhos, até que pudessem ser reabertas sem perigo. Os maçons, todavia, continuaram a trabalhar, secretamente, no Clube da Resistência, fundado por José Joaquim da Rocha, em sua própria casa, na rua da Ajuda.
Houve, posteriormente, um afrouxamento dessa lei. E, em 1821, alguns acontecimentos fariam com que os maçons brasileiros voltassem à atividade: o primeiro desses acontecimentos foi a sedição das tropas que impunham, ao rei D. João VI, o juramento à Constituição Portuguesa, a 26 de fevereiro, o que provocou o início de intensa conspiração dos brasileiros, com muitos maçons entre eles, com vistas à independência do Brasil; os acontecimentos seguintes foram os de 20 e 21 de abril, quando houve a sedição dos eleitores, exigindo a permanência do rei no país, o que provocou a pronta reação das tropas portuguesas, que garantiram o embarque da família real. Tais fatos atraíram a atenção policial contra os maçons, o que não impediu, porém, que a Loja Comércio e Artes, fundada em 1815, voltasse a trabalhar, reerguendo suas colunas a 24 de junho de 1821, instalando-se na casa do comandante Domingos de Ataide Moncorvo, na rua de S. Joaquim,  esquina da rua do Fogo, no Rio de Janeiro. Pela tripartição dessa Loja é que iria ser fundado, a 17 de junho de 1822, o Grande Oriente Brasiliano, depois Grande Oriente do Brasil.

Paradoxalmente, era do seio da Igreja, a maior inimiga da maçonaria, que saiam os mais ardorosos maçons. [...] Durante quase meio século, pelo menos de 1790 a 1889, a maçonaria fez proselitismo em todas as classes, mas com especialidade na clerical.
A campanha de separação Igreja-Estado fazia parte do programa da maçonaria. Ademais, em 13 de janeiro de 1874, por ocasião da prisão do bispo de Olinda, por razão da Questão Religiosa[4], iniciou-se um movimento político popular, em prool do Estado Laico no qual se uniram protestantes, maçons e positivistas.
A Questão Religiosa teve o seu início em 1872, com um incidente que parecia de pouca importância ou relevância, mas que acabou tomando uma dimensão inesperada e azedou as relações do imperador com a Igreja. O motivo foi a suspensão do Pe. Almeida Martins pelo bispo do Rio de Janeiro devido à sua participação em uma solenidade maçônica. Na época, o convívio entre católicos e maçons era uma coisa bastante comum no Brasil, e mesmo o Imperador Dom Pedro II tinha no rol de seus principais amigos e conselheiros políticos maçons que também eram católicos. O Imperador também pertencia aos quadros da maçonaria.
Na efervescência do problema, o bispo de Olinda -Pernambuco, dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e o bispo do Pará dom Antônio de Macedo Costa, decidiram interditar aos maçons os ofícios católicos, ou seja, os sacramentos, inclusive extensivo aos filhos e esposas. Daí então, a Questão Religiosa tomou proporções drásticas.
Dom Pedro II baseado do regime de padroado determinou aos prelados que a interdição fosse suspensa, mas eles mantiveram suas posições e acabaram sendo presos e condenados a trabalhos forçados. O governo neste episódio usou dos direitos do padroado para manter o controle do aparelho eclesiástico. Para o governo, os bispos envolvidos infringiram o direito do padroado, no ato de interditar confrarias que tinham maçons como membros, bem como recusar os sacramentos aos maçons católicos.    
A Questão culminou no enfraquecimento e desprestígio da Igreja nas classes dominantes. A classe política quase toda maçônica agiu com desprezo para com os bispos, não ocorrendo sequer um pequeno pronunciamento esclarecedor. Por outro lado, não houve nenhuma atitude popular contra o ato do Governo Imperial.
Quanto aos processos que culminaram com a condenação dos bispos Dom Vital e Dom Macedo Costa, são de notar que a grande maioria do prelado brasileiro guardou então e depois "o mais tímido e indesculpável silêncio". "A verdade insofismável, diz Basílio de Magalhães, é que a nação não se movimentou em prol dos bispos mártires, e não houve a menor tentativa para libertá-los do cárcere". Numa Assembléia Geral de 122 Deputados, somente duas vozes se ergueram em defesa dos bispos, e não eram de padres. O grosso da população também não se preocupou com a sorte dos bispos. (BASBAUM, 1957, p.315).
Dom Macedo Costa pronunciava e escrevia contra a atitude do Governo imperial, e que no entender de Vieira (1980), a atitude do bispo apressava a separação da Igreja e do Estado.
O bispo retornou à questão num editorial intitulado "Religião do Estado". Dessa vez disse que à  vista do que o Governo tinha feito para proteger os inimigos da Igreja, e que tinha deixado de fazer (proteger a Igreja) ia o bispo agora lutar por um novo programa. "Nosso programa, pois, é a liberdade e a independência da Igreja", asseverou. Naquela ocasião parecia estar Dom Macedo Costa pedindo a separação da Igreja e do Estado. (VIEIRA, 1980, p.310). 
Na opinião de Vieira (1980) deve-se observar que no Brasil como em outras partes, a maçonaria foi um dos grandes veículos da divulgação do Estado Laico. Por esta razão, ela foi a causa ostensiva da luta entre os bispos e a coroa (1872-1875) e do fortalecimento de uma ideologia laicista.
A Prancha do Grão Mestre do Grande Oriente, Dr. Joaquim Saldanha Marinho[5]"; Ganganelli (Joaquim Saldanha Marinho). Após ter sido lida e circulada em Loja, toma corpo e se inicia com toda veemência a Campanha pelo Separação da Igreja do Estado e a consolidação Jurídica Política do Estado Laico.
Anos mais tarde, a maçonaria via o seu projeto consolidado.  A monarquia havia acabado e aparece em cena ardorosos maçons, dentre estes Saldanha Marino PGM e Ruy Barbosa que junto com Nabuco de Araujo levou a cabo o pesamento das Lojas. 
Joaquim Nabuco de Araújo[6] e Rui Babosa, respeitados juristas, propagava um Estado laico, desvinculado de quaisquer cultos e religiões, bem como o ensino publico mantido pelo Estado de quaisquer religiões. Estes como muitos outros intelectuais liberais e positivistas, eram sensíveis às correntes literárias da Europa, e às idéias filosóficas, incluindo a dos enciclopedistas e constitucionalistas, proclamavam um Estado laico. Entretanto, a Constituição Republicana Brasileira teve como modelo a Constituição Norte Americana.
Mendonça (1995, p.136), assevera que:
Alguns políticos e intelectuais liberais e positivistas como Tavares Bastos, Rui Barbosa, Abreu Lima e, quem sabe, até o imperador denotava-se um nível de interesse que seguramente não foi o religioso. Ele se deu no plano intelectual, jurisconstitucional, político e ideológico, em voga no momento.
O mais importante de todos eles foi Rui Barbosa[7].
Rui na conferência de 21 de julho de 1876, em festa pública do Grande Oriente Unido do Brasil, aos 27 anos, já advogado brilhante, demonstrou o seu anticlericalismo, combatendo o papa e considerando a anistia concedida aos bispos envolvidos na Questão Religiosa como arbitrária e inconstitucional. Para ele, naquele momento só restava seu engajamento da luta pela separação da Igreja do Estado.
O “Syllabus papal era a seus olhos a carta de uma teocracia abominável. Em discurso e conferências no Porto, afirmava:
 “Eu conheço a ponta desse estilete, que fere em nome do evangelho. É sempre o mesmo aço. É o mesmo sistema jesuítico. É a mesma praxe de devassar câmaras de moribundos para extorquir à fraqueza abjurações inconscientes ou transfigurar em conversões imaginárias atos comuns de piedade cristã”. (JORGE: 1965, p.55).

Os biógrafos de Rui Barbosa[8] são da opinião de que esta paixão pela liberdade, igualdade e fraternidade, especialmente a questão do direito à livre consciência herdado dos ideais franceses coadunou com os ideais de seu mestre tanto no mundo secular como na Loja. Seu nome: Saldanha Marinho, Grão-mestre do Grande Oriente, chefe republicano e presidente da Província de São Paulo. Rui nesta Cidade conferenciava na Loja América os ideais de liberdade e separação da Igreja do Estado.
Ruy Barbosa na Capital federal confidenciou com os demais maçons a convencerem os líderes militares, o maior deles Marechal Deodoro  que era simpático à causa no entanto era ainda fiel à monarquia. O trabalho maçônico foi importante neste contexto e não somente Deodoro mas todos os irmãos de altas patentes aderiram ao projeto. Ganhada a consciência militar via maçonaria, o caminho estava aberto para consolidar não somente a República, mas uma nova Constituição e a implantação do Estado Laico.
Quintino Bocayuva[9] e Benjamin Constant[10], maçons atuantes eram politicamente propagandistas do positivismo. Os dois pregavam o regime republicano ditatorial de Comte. Mas em interface com o Grande Oriente aderiu ao projeto republicano com liberdade de pensamento e expressão. Especialmente Quintino Bocayuva logo após aderir por entendimento maçônico ao projeto de Ruy e Saldanha faz numa conferência realizada no Teatro São Luis, tinha no seu temário “O casamento civil e a Igreja livre no Estado livre”.
Praticamente todos os republicanos e defensores da separação Igreja Estado ou Estado Laico foram maçons. Podermos citar: Marechal Deodoro da Fonseca, Benjamin Constant, Rui Barbosa, Campos Salles, Quintino Bocaiúva, Prudente de Morais[11], Silva Jardim e o GM Saldanha Marinho. 


CONCLUSÃO
O processo que começou a quase cem anos antes da proclamação da Republica pelos maçons, finalmente chega ao fim. Antes de consolidar e efetivar o Brasil como um Estado Laico, foi elaborado um Projeto da Nova Constituição pelo Partido Republicano em 1980. Ei-la:
-Plena liberdade de cultos e perfeita igualdade de todos eles ante a sociedade temporal e política;
-Abolição do caráter oficial da atual igreja do Estado e sua emancipação do poder civil pela supressão dos privilégios e encargos temporais até aqui outorgados a seus representantes sectários;
-O ensino secular separado do ensino religioso, cabendo aquele às escolas e este aos pais no seio da família e aos ministros de cada religião na respectiva igreja;
-Instituição do casamento civil, sem prejuízo do voluntário preenchimento das cerimônias religiosas, conforme o rito particular dos cônjuges;
-Instituição do registro civil de nascimentos e óbitos;
-Secularização dos cemitérios e suas administrações pelas municipalidades.
Ademais, a consolidação da separação do Estado com a Igreja ocorreu dentro de um processo histórico favorável.
A questão da separação da Igreja e do Estado tinha sido debatida intermitentemente desde os dias do estudo de Macedo Soares sobre a liberdade de culto. Em 1867, alguém na convenção do Partido Liberal paulista a propusera como parte do programa de reforma apresentado pelo partido. Em 1869 o mesmo tema fora debatido violentamente no Clube Reforma. Fora também submetida ao senado como projeto de lei, naquele mesmo ano. O projeto foi proposto no Senado em 25 de maio de 1869 pelo Senador Antônio Luís Dantas de Barros Leite. Este projeto concederia liberdade de culto a qualquer pessoa que simplesmente professasse a moral do cristianismo, sem que se levasse em consideração a igreja ou crença da mesma. O projeto naturalmente deu em nada. (VIEIRA, 1980, p.183-284).
Quintino Bocayúva, Tavares Bastos, Ruy Barbosa, Demétrio Ribeiro e Saldanha Marinho, liberais - republicanos declarados, tiveram papel fundamental na luta para a separação da Igreja com o Estado. Ademais, Saldanha Marinho declarou que o programa de separação da Igreja com o Estado brasileiro era o programa da maçonaria, contra o espírito tirânico e intolerante da Igreja Romana[12].
Dois meses após a proclamação da República, é publicado o Decreto de separação Igreja-Estado depois de quase quatro séculos da união Igreja-Estado preparado por Demetrio e Rui.
Eis o Decreto na íntegra:
         Decreto nº119-A de 7 de janeiro de 1890:
         O Marechal Deodoro da Fonseca, Chefe do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, constituído pelo exército e armada, em nome da nação decreta:
         Art.1º- É proibido à autoridade federal, assim como à dos Estados federados, expedir leis, regulamentos ou atos administrativos, estabelecendo alguma religião, ou vedando-a e criar diferenças entre os habitantes do país, ou nos serviços sustentados à custa do orçamento, por motivo de crenças ou opiniões filosóficas ou religiosas.
         Art.2º- A todas as confissões religiosas pertence por igual a faculdade de exercerem o seu culto, regerem-se segundo sua fé e não serem contrariados nos atos particulares ou públicos, que interessem o exercício deste decreto.
         Art.3º- A liberdade aqui instituída abrange não só os indivíduos nos atos individuais,senão também as igrejas, associações e institutos em que se acham agremiados; cabendo a todos o pleno direito de se constituírem e viverem coletivamente, segundo o seu credo e sua disciplina, sem intervenção do poder público.
         Art.4º- Fica extinto o padroado com todas as suas instituições, recursos e prerrogativas.
         Art.5º- A todas as igrejas e confissões religiosas se reconhece a personalidade jurídica, para adquirirem bens e os administrarem, sob os limites postos pelas leis concernentes à propriedade do mão-morta, mantendo-se cada uma o domínio de seus haveres atuais, bem como dos seus edifícios de culto.
         Art.6º- O governo federal continua a prover à côngrua, sustentação dos atuais serventuários do culto católico e subvencionará por um ano as cadeiras dos seminários; ficando livre a cada Estado o arbítrio de manter os futuros ministros desse ou de outro culto,sem contravenção do disposto nos artigos antecedentes.
         Art.7º- Revogam-se as disposições em contrário.
Rio de Janeiro 07 de janeiro de 1890.
O Decreto abrangia a liberdade de culto, extinção do sistema de padroado e no seu substrato, a separação da Igreja com o Estado. Este Decreto durou até a promulgação da Constituição Republicana de 1891.
Assim estava definitivamente separada a Igreja do Estado e instaurado definitivamente o modelo de Estado Laico para o Brasil graças aos incansáveis irmãos maçons.











[1]Filósofo mestre de Platão, e este por sua vez mestre de Aristóteles. Juntos estes três representam aquilo que os historiadores chamam de “Filosofia grega clássica”. Antes deles a filosofia grega é chamada de pré-socrática. Especificamente com Sócrates nasce a filosofia voltada à racionalidade e à ciência.
[2] Existe também uma interpretação mitológica ou astrológica das três palavras dentro da doutrina maçônica.  A Igualdade é o símbolo de Libra, ou Balança. Este signo é o símbolo universal do equilíbrio, da legalidade e da justiça, concretizados pelo senso da diplomacia e da cortesia, que o caracterizam, assim como a aversão à agressividade e à violência de Áries, que está diante dele. Libra significa, em última análise, um caráter afável, um sentido de justiça, harmonia e sociabilidade, que são, todos, atributos da igualdade. A Fraternidade é perfeitamente ilustrada pelo signo de Gêmeos, em sua dualidade, representado por dois gêmeos, que são os míticos Castor e Pólux, cada um desempenhando seu papel, sem nenhuma proeminência sobre o outro. O signo de Gêmeos é dual, porque simboliza o momento em que a força criativa de Áries e Touro divide-se em duas correntes: uma tem sentido ascensional, espiritual, e a outra é descendente, no sentido da multiplicidade das formas e do mundo fenomênico. Considere-se, também, que, face a Gêmeos, está Sagitário, governado por Júpiter, Zeus, Deus, do qual todos os homens emanam, o que os faz irmãos uns dos outros, com cada um procurando-o, à sua maneira. A Liberdade é apanágio de Aquário, simbolizado por Ganimedes, pelo anjo derramando, sobre a humanidade, o cântaro do saber ; saber, que, se for bem utilizado, pode ser um meio de acesso à liberdade, co m a condição de que aceite a superioridade do iniciado. Só o iniciado, o sábio, poderá reconhecer os limites além dos quais não poderá ir, pois esta é a maneira dele chegar ao conhecimento dos mistérios divinos. Essa ligação com o divino, da qual Moisés é um símbolo, o respeito às leis divinas, fundamental para uma existência pacífica e harmoniosa, serão, também, assinalados pelo signo frontal a Aquário: Leão, cujo símbolo é o Sol; o Sol, símbolo do UM, símbolo de Deus. Esses três signos, Libra, Gêmeos e Aquário, são os signos do ar do zodíaco. E os signos do ar são símbolos do espírito, são símbolos do cosmos, que o iniciado deve procurar conhecer e compreender.
[3] Autos da Devassa da inconfidência Mineira -- volumes I, II e IV -- Edição do Ministério da Educação- 1936-1938. Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional. GRIECO, Donatello - História Sincera da Inconfidência Mineira - Rio de Janeiro, 1990. MAXWELL, Kenneth - A Devassa da Devassa (do original inglês: Conflicts and Conspiracies: Brazil & Portugal 1750-1808), Rio de Janeiro - 3a.edição – 1985. TORRES, Luís Wanderley - Tiradentes, a áspera estrada para a Liberdade - São Paulo - 2a. edição – 1977.  Ver também: BARROSO, Gustavo. História Secreta do Brasil. Porto Alegre: Revisão Editora Ltda, 1993.

[4] A Questão Religiosa: Para uma pesquisa mais abrangente sobre a Maçonaria no Brasil ver: ALBUQUERQUE, Araci Tenório. A Maçonaria e a Inconfidência Mineira. Rio de Janeiro: Editora Espiritualista, 1958. CARRATO, José F.. Igreja, Iluminismo e Escolas Coloniais Mineiras. São Paulo: Companhia Editora Nacional e Editora Universidade de São Paulo, 1968. COSTA, João Cruz. Contribuição à História das Idéias no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria e Editora José Olímpio,1956. VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1980. VILLAÇA, Antonio Carlos. História da Questão Religiosa no Brasil. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1974.
[5] Vieira: Ver também - AEG-CSM, vol. 10, Códice 41-1-57, "Prancha do Grão Mestre do Grande Oriente, Dr. Joaquim Saldanha Marinho"; Ganganelli (Joaquim Saldanha Marinho). A Igreja e o Estado. (Rio: tip. Imperial e Constitucional de J. C. de Villeneuve & Co. 1873). Os volumes II, III e IV, publicados respectivamente em 1874, 1875 e 1876, foram impressos pela Tipografia Perseverança.

[6] Em 1.12.1868, com apenas 19 anos, foi iniciado maçom pela Loja “América”, em São Paulo. Algum tempo depois recebeu o Gr.’. 18, e sendo no ano de 1875 ainda eleito para representante da Loja
[7] Rui Barbosa foi  iniciado em 1.7.1869 pela Loja “América” de São Paulo (SP), da jurisdição do Grande Oriente do Brasil, dos Beneditinos, de “Saldanha Marinho”. Consta o nome de Ruy no quadro da Loja de 1870 (Ref.1870, 505) sob ref. 101 com idade de 22 anos”, estudante.
[8] Para uma pesquisa sobre Rui Barbosa, ver: CARVALHO: Antônio Gontijo de. Ruy Estudante. São Paulo, 1949. JORGE, Salomão. Ruy Barbosa: um piolho na asa da águia. São Paulo: Editora Saraiva, 1965.

[9] Foi iniciado maçom em 1861 na Loja “Amizade”, de São Paulo (SP)
Em sessão de 21.6.1902 a Assembléia Geral resolve por unanimidade, conferir ao Gr.’. M.’. “Quintino Bocayuva” o título de Grande Benemérito, conferindo-lhe uma medalha de ouro pesando 29,4 grs e com 32 mm. Davam-lhe o título de “Patriarca da República”.
[10] Foi iniciado em 1882, mas em  18.1.1883 dedicou apenas ao apostolado positivista. Embora adormecido aprimorou os ideais maçônicos no apostolado. Para saber melhor sobre Bejamin Constant e sua relação com o positivismo, ver: Raimundo Teixeira Mendes, Bejamin Constant: Esboço de uma apreciação da vida e da obra do Fundador da República Brasileira. 2ª ed.. Rio de Janeiro: Tipografia Leuzinper, 1913, pp.41-149 e 209-210.
[11] Primeiro presidente civil e terceiro da Republica foi iniciado na Loja Maçônica “Piracicaba”; no ano de 1875, já em 24.11, deste mesmo ano recebendo Breve Constitutivo do Grande Oriente Unido de “Saldanha Marinho”, surgissem entre os 35 fundadores os nomes dos dois irmãos carnais: Prudente José de Moraes Barros, que se tornou Orador na 1ª Administração da Loja, regularizada em 10.2.1876
[12] Vieira: Ver também - AEG-CSM, vol. 10, Códice 41-1-57, "Prancha do Grão Mestre do Grande Oriente, Dr. Joaquim Saldanha Marinho"; Ganganelli (Joaquim Saldanha Marinho). A Igreja e o Estado. (Rio: tip. Imperial e Constitucional de J. C. de Villeneuve & Co. 1873). Os volumes II, III e IV, publicados respectivamente em 1874, 1875 e 1876, foram impressos pela Tipografia Perseverança.

BIBLIOGRAFIA
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1970.
ANDERSON, James. Tradução: Décio Cezaretti. Constituição de Anderson, As Obrigações de um Pedreiro- livre. Publicado pela A:.R:.L:.S:. Guatimozin, São Paulo,
2003.

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SITES CONSULTADOS:



AUTOR: Mauro Ferreira  de Souza´é Bacharel em  filosofia e teologia (Universidade Mackenzie), Direito (UNIB), Especialista em Filosofia Contemporânea e Historia pela (Universidade Metodista) e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Mackenzie São Paulo. Doutorando em Filosofia

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O 11 DE SETEMBRO E A FILOSOFIA


*Mauro Ferreira de Souza. Trabalho apresentado na Universidade Metodista de São Paulo no curso de Pós Graduação em Filosofia Contemporânea - como requisito parcial para especialização. Disciplina: Pensamento Contemporâneo (2011).

O ATENTADO DE 11 DE SETEMBRO E A FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

A filosofia tradicionalmente pula seus próprios muros e habita em outros espaços, pois
ele é interdisciplinar e multidisciplinar ao mesmo tempo. Como dizia Merleau Ponti,
“ela está em todos os lugares e não se firma em lugar nenhum”. Dada esta
multidisciplinaridade da filosofia, sua história como a história do pensamento ou sua
evolução como proposta hegeliana, falar dos atentados de 11 de setembro e sua relação
com a filosofia contemporânea, é fazer a conexão necessária da filosofia no seu tempo,
onde envolve fatores diversos como: economia, religião, história, política e sociedade.
Trata-se de um verdadeiro banquete que tem cheiro e sabor e cujo resultado será
digerido para se fazer uma crítica da realidade da existência. Nesta perspectiva, o
transito das idéias perpassam o ambiente meramente acadêmico, objetivando uma
reflexão mais densa e necessária para o debate. Assim, como bem escreveu Cerqueira
Filho, baseado nos da obra “Filosofia em tempo de terror: Diálogos com Habermas e
Derrida”. “Os episódios de 11 de setembro em Nova Iorque recolocaram em pauta o
conceito de “guerra justa”, pragmaticamente pensado como auto-defesa. Diante da
ineficácia simbólica, da idéia de ‘guerra limpa’, ‘guerra tecnológica’, onde não haveria
mais “banhos de sangue” a ser exibido, nem combate “corpo a corpo”.

“Os americanos ainda não criaram uma civilização, no
sentido profundo e completo que atribuímos à palavra
civilização. O que eles criaram é uma metrópole de
força” (Discurso pronunciado em 17 de janeiro de
2002, 11º ano pós-guerra do Golfo Pérsico iniciada por
George Bush). Saddam Hussein.

“Eu assumo a responsabilidade por tomar a decisão, a
difícil decisão de formar uma coalizão para remover
Saddam Hussein, porque a inteligência – não apenas a
nossa inteligência mas a inteligência deste grande
país [continuou Bush, se referindo à Blair e seu país]
(...) expôs um argumento claro e irresistível de que
Saddam Hussein era uma ameaça à segurança e à
paz”. (George W. Bush, New York Times, 18.07.2003).

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Em 11 de setembro de 2001, aconteceu o maior atentado terrorista da história: o ataque
às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. O mundo ficou chocado pelo
caráter grandioso e sanguinário do ato, que provocou a morte de cerca de três mil
pessoas. Além disso, o atentado terrorista teve diversas conseqüências para a política
internacional. Alguma delas se faz sentir até hoje, como a invasão do Iraque pelos
Estados Unidos. Os atentados de 11 de setembro à maior potência mundial marcam um
novo episódio nas relações de forças entre os de “cima” e os de “baixo”. Depois da
Guerra Fria, a União Soviética deixou de existir como inimigo dos Estados Unidos, que
precisaram fabricar um novo inimigo para continuar o jogo maniqueísta e, assim,
justificar o terror de Estado desenvolvido pelas políticas administrativas e financeiras
americanas. Logo foi apontado o novo inimigo – o fundamentalismo islâmico –
portador do mal, e o próprio satã era Osama Bin Laden. Sua ligação com diversos
atentados cometidos contra os interesses americanos, no decorrer da última década do
século XX, faz dele o homem mais procurado pelos Estados Unidos, o inimigo público
nº 1, tendo sido sua cabeça colocada a prêmio.
No dia 11 de setembro de 2001, o mundo parou e vimos uma nação (que sempre
transparece arrogância) fragilizada. Neste dia ocorreram uma serie de ataques aos EUA,
que resultaram em milhares de mortos e feridos. Quatro aeronaves foram seqüestradas
por integrantes do grupo islâmico Al-Qaeda, Um dos aviões sofreu uma queda quando
passageiros reagiram ao seqüestro, à queda ocorreu em campo aberto em Shanksville,
Pensilvânia, tendo como vitimas apenas os tripulantes do avião. Em um outro avião os
seqüestradores fizeram-no colidir contra o quartel general de defesa dos Estados Unidos
da América, o Pentágono, no Condado de Arlington, Virginia. E o mais chocante foi os
dois avião que colidiram com as duas torres do Word Trade Center, em Manhattan New
York. O saldo no ataque foi de aproximadamente 3.000 mortos. A primeira colisão se
deu as 8:46 da manhã, o vôo 11 da American Airleins se chocou com a torre norte do
Word Trade Center. A segunda colisão ocorreu as 9:03:11 da manhã entre o vôo 175 da
United Airlines com a torre sul do Word Trade Center. Já às 9:37:46 da manhã o vôo 77
da American Airlines colidiu com o Pentágono. E às 10:03: 11 da manhã ocorreu à
queda do vôo 93 da United Airlines, após passageiros se revoltarem com os
seqüestradores. Nenhum ocupante das aeronaves seqüestradas sobreviveram. Logo após
as colisões, as torres gêmeas desabaram quase simultaneamente, outras construções
também vieram a desabar e outras ficaram bastante danificadas. Atualmente onde antes
ficavam as torres gêmeas do Word Trade Center, virou um memorial, e está sendo
planejada à construção de um monumento em homenagem as vitimas dos ataques.
Após os ataques de 11 de setembro de 2001, foi intensificada a segurança nos Estados
Unidos e em outros países. Mesmo com intensificação da segurança, de 2001 a 2006 já
ocorreram outros ataques, mas nenhum com a magnitude do de 11 de setembro.

O Papel da Filosofia
Na filosofia, o transito das idéias perpassam o ambiente meramente acadêmico,
objetivando uma reflexão mais densa e necessária para o debate. Assim, como bem
escreveu Cerqueira Filho, baseado na obra “Filosofia em tempo de terror: Diálogos com
Habermas e Derrida” de Giovanna Borradori, “Os episódios de 11 de setembro em
Nova Iorque recolocaram em pauta o conceito de “guerra justa”,
pragmaticamente pensado como auto-defesa. Diante da ineficácia simbólica, da idéia de
“guerra limpa”, “guerra tecnológica”, onde não haveria mais “banhos de sangue” a ser
exibido, nem combate “corpo a corpo”.
Esse livro apresenta o primeiro encontro entre o alemão Jürgen Habermas e o
francês Jacques Derrida, dois dos mais importantes e polêmicos filósofos
contemporâneos que representam posições filosóficas e políticas divergentes. Ao serem
questionados, logo após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, sobre a
contribuição que a filosofia tem a dar tanto ao entendimento dessa forma de terrorismo
quanto à reação unilateral por parte dos Estados Unidos, surpreendentemente ambos se
mostram de acordo a respeito do que fazer para impedir a polarização entre o bem e o
mal: apelam para o retorno dos ideais iluministas de participação e cidadania, agora no
plano mundial. Nos diálogos, Habermas é denso, econômico, elegante, promovendo a
tolerância, enquanto Derrida segue os meandros instigantes na desconstrução da idéia de
terrorismo global, promovendo a hospitalidade. Cada diálogo é acompanhado por um
ensaio crítico de Giovanna Borradori, traçando o contexto filosófico e intelectual em
que as idéias apresentadas ganham significado pleno. Segundo Jürgen Habermas “Sem
dúvida a incerteza do perigo pertence à essência do terrorismo. Mas os cenários de
guerra biológica ou química, pintados em detalhe pela mídia norte-americana durante os
meses que se sucederam ao dia 11 de setembro, as especulações sobre os vários tipos de
terrorismo nuclear, tudo isso apenas trai a incapacidade que o governo tem de pelo
menos determinar a magnitude do perigo.” Na mesma linha, Jacques Derrida diz que
“Mais do que a destruição das Torres Gêmeas ou o ataque ao Pentágono, mais do que a
matança de milhares de pessoas, o ‘terror’ real consistiu na imagem do terror pelo alvo
em si. O alvo (os Estados Unidos...) teve como interesse próprio expor sua
vulnerabilidade, dar a maior cobertura possível à agressão da qual desejava se
proteger.”
Cerqueira Filho segue uma linha mais crítica do que Geovanna via Derrida. Diz:
Os episódios de 11 de setembro em Nova Iorque recolocaram
em pauta o conceito de “guerra
justa”, pragmaticamente pensado como auto-defesa. Diante
da ineficácia simbólica, da idéia de ‘guerra limpa’, ‘guerra
tecnológica’, onde não haveria mais “banhos de sangue” a ser
exibido, nem combate “corpo a corpo”. Em verdade este
conceito foi elaborado pela cristandade ocidental no século
XII, a partir da expansão da sociedade européia ocidental
através das lutas contra os hereges, das investidas das
cruzadas e da criação da Inquisição. De modo que, “estamos
diante de um embate ideológico travado no interior da
teologia política ocidental que percorreu vários séculos”
(Cerqueira Filho e Neder, 2003).1
....[...]

Nota: 1 Para uma pesquisa mais abrangente sobre este ponto de vista ver: CERQUEIRA Fº, Gisálio e NEDER,Gizlene, “Guerra, Política Monetária e Direito Internacional” In: IX Semana Jurídica da Faculdade deDireito da UFRJ. Rio de Janeiro, 24 a 28 de março de 2003. LIPSET, Seymour Martin, A SociedadeAmericana. Uma Análise Histórica e Comparada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966. Do mesmo autor:A Sociedade Americana. Uma Análise Histórica e Comparada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966. OHomem Político (Political Man). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967. PARSONS, Talcott, A SociologiaAmericana. Perspectivas, Problemas, Métodos. São Paulo: Editora Cultrix, 1970. RORTY, A filosofia e oespelho da natureza. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. Objetivismo, relativismo e verdade. Rio deJaneiro: Relume-Dumará, 1997. WEBER, Max, Sociologia (Org.), Gabriel Cohn. São Paulo: Ática, 1982.ALVES, Rubem Azevedo, O suspiro dos oprimidos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1984.FERNANDES, Florestan, A Condição de Sociólogo. São Paulo, HUCITEC, 1978. GIDDENS, Anthony eTurner, Jonathan (orgs.), Teoria Social Hoje. São Paulo Editora da UNESP, 1999. [Anônimo] Las Mil yUna Noches. Textos Integros. Tomo I. Barcelona, 1985. CRESPI, Franco e FORNARI,Fabrizio, Introdução à Sociologia do Conhecimento. Bauru, SP: EDUSC, 2000. BOMBASSARO, LuizCarlos, As Fronteiras da Epistemologia. Como se produz o conhecimento. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.GIDDENS, Anthony, Política, Sociologia e Teoria Social. Encontros com o pensamento social clássico econtemporâneo. São Paulo: Editora da UNESP, 1998. TOURAINE, Alain, Em Defesa da Sociologia. Riode Janeiro: Zahar Editores, 1976. COULON, Alain, Etnometodologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.HOAS, Hans, “Interacionismo Simbólico” In: Teoria Social Hoje/Anthony Gidens e Jonathan Turner(orgs.). São Paulo: Editora UNESP, 1999.


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Consultas a sites:
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http://pt.wikipedia.org/wiki/Fundamentalismo_isl%C3%A2mico
http://www.mundodosfilosofos.com.br/lea12.htm
http://www.unb.br/noticias/unbagencia/artigo.php?id=440

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

TERAPIAS ALTERNATIVAS


Terapias alternativas e Religiosidade

*Mauro Ferreira (UMESP-Universidade Metodista de São Paulo)

É impossível negar as praticas das terapias alternativas com a fé, a religião e a doença.
Por outro lado,  é difícil encontrar um país no mundo antigo onde este tema ou pratica não possa ser encontrada. Tal pratica,  foi e continuam sendo impregnando em um sistema conhecido terapias a partir de elementos que não sejam os remédios industrializados.

Tais práticas não foram iniciativas apenas dos orientais como japoneses e chineses, mas uma pratica que remonta milhares de anos atrás na Babilônia, Pérsia, Hindustão, Ceilão, Burma, Java, Arábia, Síria, Ásia Menor, Egito, Etiópia, Grécia, México, Peru etc.

Muitas provas do mesmo efeito, apontaram para a origem comum dos seus sistemas  terapêuticos baseados em elementos minerais, vegetais e até mesmo por imposição de mãos como os magos do oriente faziam.

Mas alguém poderia perguntar: Onde entra a religião ou a fé neste tema?
A resposta é simples. Primeiro porque a religião está impregnada em quase todo o planeta na suas mais variadas formas e contem um pressuposto de terapia (cura) nos seus mais diversos campos.
Por outro lado, religião possui um significado social singular, sua força movimenta os mais diversos problemas sociais e pessoais do planeta.

Sem questionar a subjetividade da cada crença, nosso desejo é trabalhar a interdisciplinaridade deste termo com a questão da terapia alternativa.

            Apesar de todo o avanço científico, o fenômeno das terapias alternativas sobrevive e cresce, desafiando a medicina tradicional e os compêndios científicos, o que em certa medida são produtos das pesquisas alternativas.

            Há estudiosos que tratam as terapias alternativas de forma reducionista limitando-a como um elemento de relações sociais ou resultado apenas da vida subjetiva do individuo.

Há porem, cientistas que preferem estudá-las singularmente, individuando-as no seu contexto. O problema aparece quando se pretende fazer analogias ou aproximações que resultam de interpretações com critérios diversos: alguns as consideram como produto de encontros e influências entre o senso comum. Outros procuram, através de confrontos, descobrirem o que distingue o conceito da prática e sua validade através dos critérios de verificabilidade e experimentação. 

Como bem dizia Henri Bérgson: A Ciência tira conclusões sobre as coisas muitas vezes de forma precipitada sem levar em conta as evidências de experimentação, dedução lógica, e pensamento racional a fim de examinar as coisas.

Certa vez Kant ao fazer “crítica à razão pura” formula as seguintes proposições:
“A razão não pode deixar-se arrastar pela natureza. Ao contrário, é ela que deve mostrar o caminho [...] obrigando a natureza a dar respostas às questões que ela mesma propõe.  A razão [...] se aproxima da natureza [...] como um juiz que obriga a testemunha a responder questões que ele mesmo formulou.”

                                                                                    
Discussão

Hipócrates filosofo grego considerado o “Pai da medicina” diz que há um  equilíbrio entre os diversos organismos e o equilíbrio destes organismos com o meio ambiente.
Esta síntese de Hipocrates só foi concretizada após a Revolução Industrial, que gerou mudanças tecnológicas, econômicas e sociais, trouxe mudanças no modo de se tratar e compreender a saúde. Tempo que entrou em vigor as idéias de grandes pensadores que buscavam auxiliar no desenvolvimento da sociedade, influenciando a área da saúde. Um desses pensadores foi René Descartes que afirmou “Não se pode conhecer o todo, sem o conhecimento das partes”, pensamento que foi seguido pela medicina Ocidental, que é dividida em especialidades médicas, já a medicina Homeopática trata o indivíduo como um todo, levando em consideração a sua maneira de reagir diante dos agentes causais da doença, assim como alegou Blaise Pascal “é impossível conhecer o todo sem o conhecimento das partes, da mesma maneira é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo”.

A saúde é um direito complexo que envolve condições biológicas, psicológicas e sociais. Segundo a Organização Mundial da Saúde “é o completo bem estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”. Visto isto,  a saúde envolve fatos como não ficar doente e ter o completo bem-estar físico e social, papel que deveria ser exercido pelo Estado, que tem a obrigação de oferecer serviços acessíveis a toda à população, que resolvam os problemas e que sejam eficazes e eficientes. Obrigações estas que são baseadas de acordo com a Constituição Federal que alega “ser a saúde direito de todos e dever do Estado, garantindo mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação”, artigo 196. O cidadão por sua vez deve ter conhecimento de seus direitos bem como de seus deveres, buscando uma harmonia com o Estado, assim como a pesquisa realizada pelo IBOPE no Brasil em 2000. (em anexo)
Como garantir a saúde do povo brasileiro diante de tantos problemas vividos pela população que implica em não ficar doente tais como: saneamento básico que acaba não sendo acessível a todos; moradia adequada, boas condições de trabalho levando em conta alga carga horária, e baixa remuneração, mais segurança, educação e acesso a alimentação de forma adequada?

Baseando em ser a moral o conjunto de normas, regras e leis que orienta o comportamento dos seres humanos em sociedade e a ética, sendo uma reflexão crítica sobre a moralidade, no direito a saúde, elas caminham lado a lado?
"Os homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde; Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro; Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido." Como na frase Buda, as pessoas acabam por buscar melhores condições de vida, e deixam em segundo plano a saúde, o bem fundamental para a vida.
Muito se têm discutido sobre temas relacionados a saúde e a ética exercida dentro dela. Podendo assim abrir divergências de opiniões e conceitos em questões éticas e morais dobre tais temas:

Relação da Religião e saúde
Atualmente, médicos e pacientes concordam que tanto a Religião e as terapias alternativas  em casos de cura de doenças é extremamente positiva. As pesquisas científicas demonstram que o efeito da espiritualidade na saúde não precisa ser limitado quando há dificuldade de cura. A fé pode sim ser preventiva.
Grandes médicos falam sobre a cura pelas terapias alternativas e a  espiritualidade para a qualidade de vida, afinal as pessoas usam a Religião para compreender melhor o sentimento da fé, mas a fé não “precisa ser atrelada à Religião”.
Para esses médicos, há necessidade de superar de vez o divórcio entre ciência e espiritualidade e fazer da fé dos pacientes um procedimento padrão essencial da nossa Medicina.
Se não for por uma questão humanista, que seja por uma razão econômica. Já existem pesquisas que mostram que os pacientes terminais com câncer que exercem a espiritualidade, por exemplo, dão menos custos para os hospitais do que outros com o mesmo perfil, mas não têm fé.
As Religiões são muito claras na relação com as doenças. Constantemente, há comentários com hábitos alimentares, circuncisão, uso de álcool e etc e isso apresenta um impacto importante na qualidade e padrão de vida das pessoas. A grande questão é tentar explicar alguns fenômenos que sabemos que existem, mesmo sem saber como e porque, de qualquer forma, eles estão documentados.

Enfim, existem preconceitos médicos em repercutir todas essas questões, mas a ciência está aí para estudar tais fenômenos. Já dizia Albert Einstein: “é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito”. Talvez estejamos começando este processo, a Medicina Tradicional é complementada pela espiritualidade e vice-versa.
.....[...]

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